segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Vida-Morte-Vida




Com calma, a tarde anunciava "é o meu fim". Eu tinha, então, poucos minutos para alçar aos céus a pipa que havia preparado durante todo o dia. O sol se escondia no oeste e eu corria para o leste, soltando a linha aos poucos; aquela coisa tão frágil, feita de papel e varetas, gradativamente ganhava sua autonomia e, à medida que subia, os tons de laranja colocavam aura na minha criação.
A sensação era exatamente esta: com a pipa lá em cima, eu sentia como se o mundo reinvidicasse algo que lhe pertencia. O meu instinto era de dar cada vez mais linha, postergando a inevitável tensão. A linha, enfim, chegou ao fim, explicitando um conflito que lhe era intrínseco. Lá em cima, a pipa parecia ignorar aquilo que a segurava e toda essa querela que a envolvia: ganhava cores cada vez mais inusitadas com o recolher do sol.
Enfim, ficou escuro. Olhava para a pipa, mas tinha dificuldade em vê-la. Sentia que ela ainda estava lá, afinal a linha denunciava a sua vontade de ir embora. Ao procurá-la novamente, sentia que ela me dizia: "Deixe-me ir, o mundo agora me deu algo que você não consegue mais entender...". Ela tinha razão; ela ainda tinha uma aura, mas esta já estava além da minha percepção.
Foi nesse momento que compreendi que toda tensão é um anseio por libertação. E toda libertação anseia por cores que não conseguimos ver.
Carinhosamente soltei a linha e senti a pipa escapar de mim e ir de encontro ao mundo.

2 comentários:

André disse...

Qdo o texto nao é impolado ngm responde. Pq? pq intelectuais adoram coisas complicadas.

achei bem bonito, principalmente a cor da pipa, me lembrou uma memoria de infancia.

Sacou? disse...

a liberdade sempre nos mostra as cores como realmente são , mesmo que estas cores não sejam agradáveis aos nosso olhos.




Bom.Até.