quarta-feira, 16 de junho de 2010

Um barco ou poema um pouquinho desafinado




Catei,
uma a uma,
as faíscas que caíam
da esquisita dança
de um começo,
que estalava
e girava em falso, agarrado
ao seu próprio fim.

Com cuidado,
construí um barquinho
com os restos que escapavam
dos nossos
olhares complacentes,
dos nossos carinhos sinceros,
nossos abraços em silêncio.

Não foi sem dor
que me despedi da embarcação
azul e laranja,
ornada de pequenas velas
amareladas,
que fiz para flutuar a esmo
e queimar sozinha
numa imolação quietinha
e escondida:

a capitulação
do ângulo reto
entre o sol e o mar.

Passada a exasperação
da oferenda;
descida a noite,
sobraram somente os olhos
ligeiramente avermelhados:
não sei se pelas rajadas do vento
marítimo
que bufava diante da canção
um pouquinho desafinada
que cantava o nosso tempo;

ou se pelo meu espelho
que, ficando para trás,
esquecido pela nau,
escurecera sem ninguém perceber.

Reflexo mesquinho:
qual o qual,
- índice de solidão -,
com um pouquinho de escárnio,
e bastante perplexidade,
estilhaçara-se ante o meu rosto,
cravejando pedacinhos de prata
na minha íris,

que, arqueada,
caravelava,
para frente e para trás
em busca de um lugar
para deitar suas costas
cansadas.

3 comentários:

dansesurlamerde disse...

por que tu escreve tão bonito?
é tão o que eu estou sentindo...

beijo.

Anônimo disse...

science of sleep

Anônimo disse...

"science of sleep" should be the name of this post