terça-feira, 8 de junho de 2010

Às vagas




Como o primeiro homem –

mil léguas arrastado pelo vento
ao ver seu rosto refletido –

Depuro em mim
A estranheza em um vulto familiar.

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Tua lembrança clama
Minhas mãos ressequidas,
Meu hálito breve.



Mas,
refreados subitamente,
Já não podem tocar
O corpo que é informe:

Que, no desluzir-se,
é arrancado

- gota a gota –

para a quina do ser.

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No eco do gesto interrompido,
Sinto reverberar,
Como ondas nascendo de uma gruta,
Aquilo que afaga meus cabelos,
Consola o ocaso do eterno,

Suspende,

Suspende,

Suspende:


o silêncio.

terça-feira, 18 de maio de 2010

O homem sem rosto




No jogo plúmbeo da consciência,
que se afasta,
Tece-se o vagaroso elã
de ir longe,

demais.


Os passos se equilibram
sobre o fio vermelho no corredor.
Apontam, inaudíveis, em direção à sala,
os estalos da velha madeira envernizada,

demais.


A mão tateia as paredes brancas,
afasta a névoa em teia,
enche-se de calores úmidos,
e roça nos rasgos dum êxtase vazio,

demais.


O piso em falso anuncia o grito -
contido, abafado, silencioso: infantil.
O convite sussurra os cabelos,
o riso emerge da neblina, assustador;
são dentes e olhos brancos,

demais.

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O tilintar dos espelhos quebrados rompe a noite.
O rosto, de único golpe, afunda-se no deslocamento brusco
dos mil cacos que iluminam as ruínas em uma só cor:
terrivelmente uníssona;
terrivelmente real.

Os olhos revirados para cima
vêem recair sobre si sua imagem refletida

no céu sem qualquer estrela,
pesadamente negro.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Museu japonês




Abro a caixa de lembranças
E signos,
indecifráveis,
escorregam em suas bordas:

O destino rasgado em silêncio,
O assobio frio de junho,
E todos os cantos da vida,
que não se mostram à imaginação.

A intumescência dos vãos -
Preenchendo de vertigens os odores balsâmicos,
Nos corredores do museu japonês -
Fez urgir, na respiração presa, a pergunta:

Durmo?



Quero acordar.

domingo, 11 de abril de 2010

Deitou




Bate, bate
Saudade rebate,
Num’alma sem tempo para errar.
E o vento,
Que não é mais jovem,
S’enlaça
No canto e na dobra,
Revoa a poeira do eterno soçobrar.

Queimam, queimam
Cílios requeimam,
De tão pura distância do sol.
E o tempo,
Que não é mais ébrio,
Se encurrala
Entre o ser e o vazio,
Envelhece a quem lhe dirige o olhar.



Bate, bate
Saudade rebate,

Cresce saudade em mim.
Cresce saudade de mim.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Descoberta





Te encontro ali,
na esquina,
como o vento que nasce da confusão das ondas:

penteia a areia
e acaricia os amantes

- tranqüilos -

de mãos dadas sobre o pôr-do-sol.



Te encontro no sobressalto da vida,
Na arritmia das horas,
No cruzamento das nossas pernas com o eterno:
Na dama-da-noite que ri do tempo,
– É o cheiro de infância,
o odor da velhice;
a madrugada longa –

É o risco azul na escuridão prenhe da manhã.


Te encontro em outras e outros,
Tantos outros
Tant'outro
Que, rasgado no espelho,
Sou eu mesmo...

...descoberta:



Te encontro em mim,
No rendado tecido onírico,
Que afoga Chronos
no desespero das horas passadas,

futuras.


E,
quando,
na respiração
entrecortada,
fremida,
premente,
os olhos, abertos,
soluçarem um balbucio:

'agora'.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Tsuru




Desde tempos passados, carinho delicado: presente lugar, altitudes oceânicas.
Des-passados, presente oceânico: carinho em altitudes delicadas.
Tempos oceânicos, alti-presente carinho: delicado lugar.
Lugar no passado, desde altitudes presentes: carinho.
Delicadas altitudes: passados-tempos.
Tempo: des-oceanos.
Oceânico:
presente
passado
carinho.

sábado, 6 de março de 2010

Sobre vida




Suspenso por tensos barbantes,
Prendo a respiração
Guardo-a na garganta, no tronco,
Até que ela se dissipe em mil faíscas
nas pontas dos pés.

Solto-me do diabo em minhas costas,
Dou adeus à eterna repetição das horas,
À cansada sedimentação de gravidade
Nos pontos cegos da memória;

e toco a vida


Com a tristeza que carrego nos dedos;
Com a potência dobrada nos seios;
Com o fulgor que cintila em minhas coxas contraídas.




Contraídas: sobre a vida.